Ney Matogrosso completa 76 anos

Ney de Sousa Pereira, mais conhecido como Ney Matogrosso completa 76 anos nessa terça-feira, 01 de agosto, mantendo-se como o mais completo artista do cenário brasileiro. Ele começou sua carreira musical com o grupo Secos & Molhados – um dos mais importantes gritos de independência, rebeldia e ousadia que a música brasileira já apresentou. Isto aconteceu no começo da década de 70, num Brasil que vivia em plena época da ditadura.

Sempre me lembro do comentário de um amigo, Paulo Reis, sobre a visão das primeiras aparições do grupo ‘Secos & Molhados’ na TV brasileira. Ele contou que aquilo foi um choque, que o deixou fascinado. Ele entendeu que existia uma representação do ‘diferente’.
Bom, não tive o privilégio de ver este momento e também não sei qual foi o primeiro momento que vi a imagem do grupo, mas sei que também fiquei enfeitiçado pela imagem daquelas figuras maquiadas, que pareciam saídas de alguma tribo maia… Meio animais… Meio guerreiros… Meio sobrenaturais… E Ney Matogrosso dançando sensualmente, provocando os mais primitivos desejos entre homens e mulheres. Desconheço outro artista brasileiro que tenha tamanho poder. Até 2017, lamento informar, ninguém chegou nem perto.

Ney Matogrosso @ Divulgação

Pela primeira vez, em 1992 assisti Ney no Teatro Castro Mendes, em Campinas. Era o show intimista ‘À Flor da Pele’, ao lado do músico Rafael Rabello. Apesar de distante da exuberância que esperava, num tom que valoriza seu talento de cantor, lá pelo final, a ‘entidade’ baixa. Ele desce do palco para dançar nos corredores do Teatro Castro Mendes. Foi como se um raio atingisse a plateia, tamanha excitação que aquilo provocou. Ele contaminou homens e mulheres. Foi um happening. Não consigo encontrar outra palavra para descrever o que foi aquilo. Mas posso garantir que foi um momento único. Antes, somente Tina Turner tinha me provocado uma reação parecida no show no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, em 1988! Mesmo assim, foram sensações diferentes.

Origem

Secos & Molhados @ Reprodução1
Secos & Molhados @ Reprodução

Secos & Molhados foi uma banda brasileira, criada pelo compositor João Ricardo em 1971. Sua formação inicial era composta por João (violão de doze cordas e gaita), Fred (bongô) e Antônio Carlos, ou Pitoco.
Em julho daquele ano, Fred e Pitoco, resolvem seguir carreira solo. Desta forma, João Ricardo saiu à procura de um vocalista. Por indicação da compositora Luli, conheceu Ney Matogrosso, em outubro de 1970. Quase um ano depois, ele se mudou para São Paulo. Gerson Conrad, vizinho de João Ricardo, também foi incorporado ao grupo.
Com a formação completa, o grupo começou a ensaiar e gravam a canção ‘Voo’ para uma montagem teatral de Antunes Filho. Depois, eles surgem no teatro do Meio, de Ruth Escobar, que virou um misto de bar-restaurante chamado “Casa de Badalação e Tédio”.

Ney Matogrosso @ Divulgação

Ney interpretava um marinheiro numa peça no Teatro Ruth Escobar. Um dia, chegou atrasado para ao show usando a maquiagem do espetáculo. Luli, inspirada pela peça ‘Jardim das Borboletas’ gostou e completou com purpurina. Dez minutos depois, todos usaram estavam maquiados.
Aquilo provocou um furor: “Na época, já havia um sentimento diferente. Havia o New York Dolls, o David Bowie, o Alice Cooper. Mas a nossa necessidade de pintar os rostos não era só estética, era essencial. Era o momento do rock progressivo e nós fazíamos canções. Nosso cantor tinha voz fina. Vimos a necessidade de nos apresentarmos de maneira diferente. Não éramos uma banda no sentido convencional“, conta João Ricardo.

Sucesso

Show Secos & Molhados. Maracanãzinho. Acervo Moracy do Val.Foto Ary Brandi.
Show Secos & Molhados. Maracanãzinho @ Acervo Moracy do Val @ Ary Brandi

No dia 23 de maio de 1973, o grupo entrou em estúdio “Prova” para gravar – em sessões de seis horas ao dia, por quinze dias, em quatro canais – seu primeiro disco. Em dois meses, ele vendeu mais de 300 mil cópias. Meses depois, chegou a um milhão de cópias.
Desta forma, o grupo se tornou num dos maiores fenômenos da música popular brasileira, batendo todos os recordes de vendagens de discos e público. As canções “Sangue Latino”, “O Vira”, e “Rosa de Hiroshima” se tornaram clássicos.
O disco também destacava inúmeras críticas a ditadura militar vigente no Brasil, principalmente nas canções de blues “Primavera nos Dentes” e o rock progressivo “Assim Assado” – com versos que personificam uma disputa entre socialismo e capitalismo.

O sucesso do grupo atraiu a atenção da mídia, entrevistas em rádio, jornais e revistas e participações em programas de televisão, como Fantástico, da Rede Globo – que era o mais prestigiado da época.
Eles sempre apareciam com maquiagens inusitadas  e roupas diferentes – uma das primeiras e poucas bandas brasileiras a aderirem o Glam Rock. Existe uma história que o Kiss ‘copiou’ a ideia na caracterização para a formação do grupo.
Em fevereiro de 1974, fizeram um concerto no Maracanãzinho, que bateu um novo recorde de público no Brasil – enquanto o estádio comportava 30 mil pessoas, outras 90 mil ficaram do lado de fora.
Também em 1974 o grupo sai em turnê internacional, que segundo Ney Matogrosso, gerou oportunidades de criar uma carreira internacional. Ele recusou. Seu interesse era ficar no Brasil.

Fim

Em agosto do mesmo ano, foi lançado o segundo disco de estúdio da banda, que destacava “Flores Astrais”. O lançamento do disco foi pouco antes do fim da formação clássica da banda, que ocorreu por brigas internas entre os membros – principalmente ligadas a ciúmes, vaidades e dinheiro.
Os três partiram em carreiras-solo. A mais bem-sucedida foi de Ney Matogrosso, que se tornou o maior showman do Brasil há quase cinco décadas.

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