Mesmo sem novidades, documentário sobre Whitney Houston vale uma espiada

Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie

Artigo assinado pelo editor Jorge Marcelo Oliveira

Documentários baseados em biografias são complicados. Primeiro ponto é entender qual o objetivo para a realização do mesmo. Parece bobagem isso, mas veja bem: tudo depende de um ponto de partida. Diretores e roteiristas fazem escolhas. Alguns optam por um determinado aspecto da vida do retratado, deixando de lado pontos que não achem relevantes, baseado no que eles querem retratar. Outros, nos piores casos, omitem fatos, que poderiam ser fundamentais para entender a ‘essência’ do retratado. Em todo o caso, toda biografia precisa ser vista (ou lida) com desconfiança. Não pode ser igual esses ingênuos das redes sociais que recebem informação estranha e divulgam, sem checar sua veracidade.
A coisa se complica quando o retratado é um artista muito famoso. Nesse caso, ele ainda terá que agradar aos fãs – que esperam retratados edulcorados do seu ídolo. Fãs enxergam apenas o aspecto positivo de quem ele idolatra.
Bons exemplos recentes são os documentários biográficos de Nina Simone e Janis Joplin. O primeiro, ‘What Happened, Miss Simone?’, dirigido por Liz Garbus, conta com fortes depoimentos, principalmente de Liza Simone Kelly, filha da cantora e ativista. O segundo, ‘Janis Joplin: Little Girl Blue’, de Amy Berg, que mergulhou à fundo na atormentada vida da grande cantora de rock e blues do final dos 60 e início dos 70, que continua a influenciar uma legião de artistas há 50 anos. São casos à parte.

A maioria, infelizmente, fica na superfície. Nesse caso, Whitney – Can I Be Me, é o exemplo mais recente. Não autorizado pela família, o cineasta Nick Broomfield’ optou por contar a vida da grande ‘voz’ do Pop/R&B americano em formato de revista de fofoca. Se você leu as resenhas produzidas pós-morte da cantora, em 2012, até encontrará um ou outro detalhe interessante, porém, no geral, é ‘mais do mesmo’.
Nos primeiros cinco minutos, surge uma fala de um dos depoentes que afirma que ‘Whitney não morreu de overdose. Morreu de tristeza’. É o primeiro problema do documentário: a veracidade do documentário colocada à prova, com um tipo de fala digna de novela mexicana.

A Grammy Salute to Whitney Houston @ Reprodução

Nick opta por contar a estória a partir dos bastidores de ‘My Love Is Your Love World Tour’, em cenas filmadas por Rudi Dolezal durante a viagem pela Europa, mostrando uma suposta Whitney ‘real’. Do ABC da vida real, sabemos que raros artistas são verdadeiros diante de uma câmera – principalmente uma profissional. No show, o que mais chamou a atenção foi a voz que apresentava sinais de desgastes, resultado de longos anos de abuso de drogas ilegais e álcool. Ela chegou a cancelar algumas apresentações por esse motivo. Nesse momento, temos o segundo problema: dona de uma das vozes mais marcantes da história da música americana, esse instrumento foi esquecido pelo documentarista.

Grammy History Whitney Houston @ Reprodução

Voltando ao tempo, vemos suas primeiras apresentações, quando foi descoberta pelo produtor Clive Davis. Ele conta como trabalhou sua imagem para ser aceita pelo público branco – o mesmo que aconteceu com Diana Ross passou nos anos 60, com as Supremes. Baixou sua potencia vocal para se adequar ao formato das canções pop românticas e dançantes da época. O resultado foi um sensacional sucesso de vendas do primeiro álbum ‘Whitney Houston’, que vendeu 28 milhões de cópias em todo o mundo. Ganhou um Grammy de Melhor Cantora Pop, dois American Music Awards, um VMA, um Emmy e oito Billboard Music Award em 1985 e 1986. Paralelo ao sucesso, a polêmica da comunidade negra que afirmava que ela aceitou ‘ser vendida’ ao mercado branco. O resultado disso foi a vaia quando sua imagem apareceu no telão no Soul Train Music Awards em 1989. Segundo o documentário, aquilo foi um golpe para a cantora, que sofria de baixa autoestima. Nesse ponto, surge o terceiro problema: por que uma mulher jovem, bonita, alta e famosa sofria com sua autoestima?

Whitney Houston It’s Not Right, But it’s ok @ YouTube

Algumas pistas: sua orientação sexual (lésbica ou bissexual) e seu relacionamento com Robyn Crawford, que surgiu na adolescência e durou até 1999. Esses dois fatos eram detestados pelos pais, Cissy e John Russell. Segundo o depoimento de uma amiga, ser lésbica era um assunto que não existia na comunidade negra americana. Pelo menos, na época.
Apesar da abordagem rápida, o foco, a partir desse momento, é o relacionamento da cantora com Bobby Brown. Superficialmente revela-se que ela o apresentou as drogas, enquanto ele se encarregou das bebidas. Com a intensidade do relacionamento e o nascimento da filha, Bobby Christina, Robyn é deixada de lado, mesmo mantendo-se presente como ‘amiga’ e ‘mão para toda obra’ nos shows. Oficialmente, sem entrar em detalhes, elas rompem em 1999.

Sobre a questão das drogas, superficialmente, conta-se que Whitney teve uma overdose durante as filmagens de ‘Falando de Amor’.
Nada se fala sobre seus próximos álbuns ‘Whitney’ (1987), ‘I’m Your Baby Tonight’ (1990) e ‘My Love Is Your Love’ (1998), optando por abordar o filme ‘O Guarda-Costas’, em 1992. Uma revelação: Kevin Costner pediu para o diretor não usar ‘I Will Always Love You’ na cena chave da estória.
Nesse momento, entra em cena o guarda-costas da vida real, David Roberts, que trabalhou sete anos com a cantora e acompanhou de perto seus problemas. O auge aconteceu quando entregou um relatório para a família, contando os problemas que aconteciam com Whitney, incluindo os nomes das pessoas que forneciam drogas. Foi dispensado pelo telefone.
Em outros momentos, curtas cenas de entrevistas dadas as apresentadoras Oprah Winfrey, Katie Couric, Diane Sawyer, mas nada de novo é revelado. Eventualmente, na fala da mãe surge algo que fuga do lugar comum.
Enfim… Mesmo sem novidades, pouca emoção e total ausência de números musicais na integra (não se esqueça que é uma não autorizada pela família), ‘Whitney – Can I Be Me’ vale como registro para a nova geração, que não sabe de nada sobre a vida da ‘The Voice’, apelido ganho em quase três décadas de sucesso. Mas, só se você não exigir muito.
Tanto ele quanto os outros citados no texto estão disponíveis na Netflix.

Um comentário

  1. Que pena… mas acredito que obras mais aprofundadas, sobre ela, surgirão eventualmente. Valeu! 😘

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