Jornalismo de moda na Era Digital

Jorge Marcelo Oliveira responde questões sobre o jornalismo da moda em tempos de comunicação digital.

Confira:

A internet: um aliado, um inimigo ou os dois do jornalismo de moda?

Primeiro que acredito que existam poucos jornalistas que realmente entendem de moda. Não basta ser apaixonado, acompanhar desfiles e ler (eventuais) resenhas. É preciso estudar sobre história, artes, cultura, etc. Visitar museus, exposições, galerias, Bienais, mostras de decoração, ir a desfiles, viajar… A internet tem bons locais para aprender sobre o assunto, porém, é bem pulverizado. Também desconfio que os interessados busquem informações com conteúdo. É uma Era que se acostumou com rapidez de informação. Num piscar de olhos um acontecimento é esquecido em detrimento de outro. Isso cria uma ‘preguiça’ mental para se aprofundar em qualquer assunto, pois, ele é rapidamente superado.

Quanto vale uma crítica?

Depende de quem e para quem! Mas, antes, proponho outra pergunta: “Quem se interessa por crítica de moda?”. Pouco provável que seja o consumidor final que se acostumou com a rapidez das redes sociais. Pessoas compram produtos divulgados por influenciadores digitais – pagos ou não, com ou sem conteúdo. Uma pessoa tem 300 k de seguidores – orgânicos ou comprados – ela se torna uma especialista do assunto? Claro que não, porém, se tiver uma excelente empresa responsável por sua imagem, que segue fielmente as regras publicitárias, ela será tratada como ‘especialista’. É uma bela jogada de marketing. Sendo assim, porque ela irá se graduar, fazer mestrado ou doutorado em jornalismo de moda? O importante é a o quanto ela é boa para enganar pessoas por um bom tempo.

Para quem a crítica era feita e pra quem ela seria hoje?

Para a geração 80 e 90 que lia Folha de S. Paulo, Estadão, Jornal do Brasil e, eventuais revistas especializadas ou assistia os quadros de moda da Cristina Franco no Jornal Hoje. Essa geração também tinha uma ideia romântica sobre a moda, colocando-a como algo distante de sua realidade. Além do mais, a revitalização de grandes nomes da moda abriu espaço para os jovens criadores europeus e asiáticos. Com a abertura econômica dos anos 90 ao mercado internacional, uma nova classe social brasileira começou a ter acesso aos produtos que antes era restrito apenas àqueles que viajavam. Hoje… Quem se interessa uma crítica de moda? Talvez estudantes de moda e aos poucos apaixonados (principalmente pessoas de 40, 50 ou 60 anos) que resistiram às mudanças dos últimos anos.

Revistas de Moda @ divulgação

Por que a crítica ainda é importante pra moda?

Não tenho certeza se ela ainda é importante. Talvez quando as atuais influenciadoras digitais se casarem com homens ricos, mudarem seu foco de vida e as empresas voltarem a atenção às mídias especializadas no assunto, as coisas voltem aos eixos. Talvez. Apesar do desaparecimento de muitas influenciadoras (que mudaram o foco para ‘Lifestyle’, mesmo que a maioria não sabem o que realmente significa a palavra…), acredito que isso levará mais alguns anos. Quando isso acontecer – e eu espero que aconteça – a moda poderá voltar a ser interessante e uma geração de novos pensadores de moda será ouvida.

Considerando o poder dessa mídia hoje, é possível usar o Instagram pra fazer um conteúdo mais aprofundado?

Possível é, mas para quem? Nas timelines, pessoas se acostumaram a ver fotos bonitas, curtirem e pularem para a próxima. Raramente leem os textos – principalmente os longos. Nos Stories, então, é impossível ler algum texto com mais de cinco palavras. É botar uma foto com legenda, localização e uma animação. O mesmo vale para os filmes.

Quais os caminhos para o jornalismo de moda e como ele pode sobreviver a era digital?

Os impressos vivem seus últimos minutos. Os poucos que ainda insistem estão recheados com lindas fotos e parcos textos com relevância. Além do mais, são lidos por pessoas acima dos 40 anos. Elas irão envelhecer… A geração Millenium nunca abriu um jornal ou uma revista e não mudará o comportamento, pois não foi habituada. Isso se tiver algo impresso no futuro. Porém, como já disse, a facilidade ao acesso a informação criou uma geração que se dispersa muito rápido. Seu interesse por algo dura até o próximo clique. Além do mais, é uma geração que porcamente escreve. E não são os únicos. Constantemente, vejo profissionais estabelecidos no mercado – seja qual for – que cometem inacreditáveis erros de português. Ter fácil rápido a informação não significa que a pessoa seja mais culta ou algo do gênero. Quanto aos caminhos do jornalismo de moda… Apesar de não parecer, estamos vivenciando uma revolução. É impossível fazer qualquer previsão com eficácia. As únicas certezas que tenho é que jornalismo e moda continuaram a existir. É uma profissão e um campo ligados a história da sociedade. Como ele será no futuro? Gostaria de estar aqui para saber.

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