Quem é você na fila do pão?

Num sociedade guiada pelo consumo, TER importa mais do que SER. É o mantra que orienta a vida de muita gente. Mas… Veja bem…
• É importante ter um iPhone. Mas quem disse que a tecnologia OS é melhor do que o Android?
• É importante ter um carro branco que não seja ‘básico’ se você não sabe – e não quer aprender – metade dos comandos da central de multimídia?
• É importante ter uma casa num condomínio badalado da cidade se seus vizinhos eram aqueles pobres que enriqueceram quando o PT estava no governo? Que ganharam dinheiro, mas não refinamento. E se comportam do mesmo jeito de quando moravam na periferia?
• É importante ter tempo para ‘tomar sol no clube ‘x’ durante um horário da semana se o título familiar corre o risco de ser cancelado por falta de pagamento?
• É importante que o filho de dois anos estude numa escola no qual a mensalidade seja maior do que alguns cursos universitários?
• É importante que o filho faça 200 cursos por semana ao mesmo tempo em que precise começar a fazer terapia aos sete anos?
• É importante comprar uma bolsa importada em 12 vezes se na última parcela ela já ficou datada?
• É importante comprar um delicado cordão de ouro H. Stern se você é gorda, tem uma papada igual do Beiçola e ninguém consegue enxergar o cordão no seu pescoço?

Vou contar uns ‘causos’:

• Uma vez perguntei a um amigo porque ele comprou um iPhone. Como ele me conhece, engasgou para responder. Até que perguntei: “Mas você acha que o iPhone é melhor que o Android?”. Ele não soube responder.
• Uma amiga teve uma loja no Cambuí. Num determinado dia, entra uma ‘pessoa da sociedade’. Depois dos beijinhos, ela disse: “Gosto muito da sua loja. E, como minha filha só estudo e não faz NADA o resto do dia, pensei que ela poderia trabalhar aqui. Você sabe que sou uma pessoa conhecida na cidade. Ter minha filha trabalhando aqui seria uma forma de trazer amigas para conhecer sua loja”.
• Outra vez, uma amiga contou que ‘perdeu’ as fotos de uma viagem, pois o iPhone salvou num lugar x que não conseguia encontrar. Precisou acionar um técnico para encontrar essas fotos. Perguntei: “Mas porque você tem um aparelho que deveria facilitar sua vida e não atrapalhar?”. Ela respondeu alguma coisa inclusiva tipo ‘ganhou o aparelho de um parente dos EUA’.
• Um amigo trocou de carro. Empolgado, veio me contar que: “Sentiu que as pessoas que trabalham com ele ‘mudaram o olhar’”. Perguntei: “Como assim?” Ele respondeu que sentiu que ‘agora ele era igual à eles’.
• Numa noite dessas, enquanto aguardava meu carro na fila do vallet-park pós um evento, ouço o seguinte comentário quando chegou o carro de uma paisagista: ‘Nossa, é bom ter marido rico que banca um carrão desses, né?’
• Um arquiteto me contou que foi atender um cliente num condomínio x de Campinas. A fachada tinha uma ampla janela no qual se destaca um mega lustre. Ao lado, dois carros luxuosos na garagem. Assim que ele entrou na casa, um colchão servia de sofá para assistir TV apoiada em caixas de feiras. Na cozinha, uma mesa e quatro cadeiras de ferro, igual as utilizadas em bares.
• Recentemente, uma pessoa me contou que a vida financeira de um colega estava um caos. Na tentativa de ajuda-lo, perguntou se não queria vender seu carro. A resposta foi: ‘Não posso. Ele corre o risco de ser apreendido graças à uma ação do passado’.
Afinal, é importante demonstrar que você é alguém na fila do pão. Não é?

Quem é você na fila do pão? @ Reprodução