Crônica: A Flor e a Flor – Declaração

Crônica assinada por Giselle Bohn – especial para o MONDO MODA

Nesta quarentena me vi, de repente, com muito tempo nas mãos. E poderia, claro, estar fazendo ótimo uso dele, mas lamento que não é o caso aqui. A maior parte do meu tempo livre passo da pior forma possível: nas redes sociais.
Um dia, há muito anos, calculei quantas horas eu havia passado na então única rede social que eu acompanhava, e me assustei. Hoje nem tenho mais coragem de refazer essa conta; o que mais assusta nela não são as horas perdidas, mas, sim, as horas não vividas.
E com as redes sociais mesmo as horas vividas têm outro sabor. Estar com os amigos, viajar, apreciar o pôr do sol da janela do quarto, acariciar o gato que dorme no sofá, participar daquele almoço com a família inteira no domingo, ir ao cinema, pedir o prato favorito no restaurante, começar orgulhoso um novo emprego, admirar uma flor, ajudar alguém, comemorar o primeiro aniversário do seu filho, ir a um museu, ler um artigo maravilhoso no jornal, ganhar um presente, rir com o comentário inocente de uma criança, ouvir uma música, caminhar na praia, olhar-se no espelho e gostar da sua própria aparência: sim, eu tenho idade suficiente para me lembrar de uma época em que tudo isso era feito assim, só pelo prazer intrínseco.

Giselle Fiorini Bohn @ Acervo Pessoal

Não mais. Hoje sacamos prontamente o celular e registramos e compartilhamos tudo com tal urgência, como se temêssemos que, se não o fizermos, a experiência não terá existido. Precisamos validar com o olhar do outro, com seus likes ou com seus coraçõezinhos ou com seus reposts ou com seus comentários, que aquilo ali aconteceu mesmo, que eu sou assim, que esta é minha vida. Olhem todos, vejam, eu viajo, eu sou solidária, meus filhos são incríveis, eu tenho sucesso, eu aprecio a natureza, meus gatos são fofos, eu tenho amigos, nossa família é unida. Eu posto, logo, existo.
Mas não aponto o dedo a ninguém além de mim mesma. A partir de que momento admirar uma flor deixou de ser um ato solitário, que se bastava em si, e passou a ser uma pequena declaração sobre mim? Quando foi que eu passei a me permitir, através do ávido compartilhamento dos meus pensamentos e das minhas experiências, precisar de tanta aprovação? E o que eu ganho com tudo isso, senão um falso conforto ao me sentir momentaneamente admirada, reconhecida, amada, até? E o que é este texto, senão apenas mais uma tentativa nessa direção?
Não tenho respostas; só perguntas, uma vontade louca de viver em outro mundo e um gosto ruim na boca.
Ter muito tempo nas mãos faz isso com a gente.

Orquídea @ Gisele Bohn