Bridgeston – a nova série sobre o ‘nada’

Bridgeston é a adaptação do primeiro, de uma série de oito, livro da escritora americana Julia Quinn ‘The Duke and I’, que se passa na Inglaterra do Período da Regência (1795 a 1837).
Reinado de George III – o Rei Louco – no qual sua mulher era Sophie Charlotte de Mecklenburg-Strelitz, que segundo o historiador Mario de Valdes y Cocom, era descendente direta de uma africana portuguesa do século 15 (teoria levantada em 1996, no programa Frontline, da emissora PBS, rede de televisão americana de caráter educativo-cultural, mas sem um posicionamento oficial da Família Windsor).
Graças a isso, na série, os brancos e os negros conviviam pacificamente, como o cobiçado Simon Basset (Regé-Jean Page, realmente muito bonito), Duque de Hastings, por qual Daphne Bridgerton, a filha mais velha da família de Viscondes Bridgeston vai se interessar.
O romance demora a engatar, pois o rapaz tem um trauma do passado envolvendo seu falecido pai, porém, quando o romance acontece, o casal inter-racial será o protagonista de fartas doses de cenas de sexo (algo do tipo ‘Playboy TV’), incluindo testar os diversos ambientes do castelo da família.

Bridgerton @ Netflix

E o que mais temos de mais ou menos interessante: Marina, a prima que chega grávida à corte para desespero da tia Portia, a Baronesa de Featherington, que corre para lhe arrumar um marido; Eloise Bridgeston, irmã de Daphne, que deseja ser escritora, mas sabe que seu destino não será muito diferente de outras mulheres de sua época que é arrumar marido e a gordinha Penelope Featherington, a filha mais nova de uma família de Barões com muita pose e pouco dinheiro, apaixonada pelo irmão mais novo da amiga, ou seja, outra que deseja arrumar marido.
E tem mais uma coisinha: assim como a falecida série ‘Gossip Girl’ (e outros que usaram o mesmo recurso posteriormente), a trama é relatada pela misteriosa e muito bem informada Lady Whistledown.

Comentários

Durante anos a frase ‘Uma série sobre o nada’ era usada para definir a comédia ‘Seinfeld’, que ficou no ar entre 1989 a 1998. Os poucos episódios que assisti não me diziam nada. Não via qualquer graça nos quatro personagens, apesar de reconhecer o talento dos atores. Pois bem… A ‘nova série sobre o nada’ se chama Bridgeston, que a Netflix está fazendo mega campanha como ‘o maior sucesso da temporada’.

Golda Rosheuvel as Queen Charlotte in Bridgerton @ LIAM DANIELNETFLIX

Assim que estreou no final de dezembro passado, vi um episódio e meio. Achei tão ruim que abandonei. Aí… Comprando o marketing da Netflix, além de ‘não deve ser desprezada nos indicados ao Globo de Ouro 2021’, escrita num post pela galera do Gold Derby, não tive outra opção. Deixei de lado meu típico mau humor com comédia romântica e maratonei em três dias. Foi difícil.
Lembrei-me daqueles filmes ingleses dos anos 80 e 90, baseados nas obras de Jane Austen, como ‘Orgulho e Preconceito’, ‘Razão e Sensibilidade’ ou ‘Emma’ ou de Louisa May Alcott ‘Mulherzinha’ – que teve sete versões adaptadas para as telonas. A mais recente foi em 2019 com Saiorse Ronan, Emma Watson e Meryl Streep.
Com diferentes pontos de partida, as tramas eram retratos de jovens mulheres na Inglaterra do século 18 que, eventualmente até lutavam por outro ideal, mas, no final, o que desejam era arrumar um marido. De preferência, rico e nobre. Seja por pressão da família, da sociedade ou do próprio destino, os destinos de cada uma das heroínas eram semelhantes.
Em comum, esses filmes tinham ótimas reconstituições de época, premiados trabalhos de Desenho de Produção, Direção de Arte, Figurinos, Maquiagem e Cabelo. Em sua maioria foram premiados com Oscar em tais categorias.
Em Bridgerton temos tudo isso. Sim, é uma aula sobre figurinos no Período da Regência, que certamente irá encantar os apaixonados por moda de períodos históricos. Os cenários dos castelos e jardins são encantadores… Mas é só isso.
Em oito episódios, a trama se arrasta numa sucessão de trocas de vestidos, bailes, intrigas, fofocas, romances que engatam e se desfaz com a mesma rapidez e sem personagens relevantes. Até as duas vilãs – a Baronesa de Featherington e a invejosa que queria se casar com o príncipe são, no fundo, umas coitadas.
As personagens são unidimensionais e rasas. Suas ações são óbvias, sem brilho e fartamente repetidas em diversas outras obras. É tudo tolo, bobo e esquecível.
O casal principal se salva pela beleza do ator que representa o Duque, Regé-Jean Page. Casal responsável pelas excessivas cenas de sexo que não acrescentam nada a trama. Lógico que devem agradar à legião de mulheres de 40-50-60 que garantiu o sucesso daquela porcaria de ’50 Tons de Cinza’.

Golda Rosheuvel as Queen Charlotte in Bridgerton @ LIAM DANIELNETFLIX

Poderia relacionar diversos furos, preguiças e repetição na trama, mas vou me ater a duas questões (ALERTA SPOILER):
1. Para ‘comprar’ a série da poderosa produtora Shondra Rhimes e do showrunner Chris van Dusen, você precisará acreditar que a Rainha Sophie Charlotte de Mecklenburg-Strelitz era negra. Que os negros da série não sofriam qualquer preconceito e que eram plenamente aceitos por ricos e plebeus. É um ponto que está rendendo discussões. Lógico que acho o máximo a quantidade de atores e figurantes negros como nobres numa corte inglesa, porém, história não é feita por aquilo que eu gostaria que tivesse acontecido. História é baseada em fatos documentados. Sendo assim, qualquer traço de ‘retrato histórico de uma época’ não tem sentido. Nesse caso, é um romance que se passa num mundo alternativo do Período da Regência – sem qualquer relação aos fatos reais.
2. Como é possível que a eventual Lady Whistledown seja Penelope Featherington que, sua família não tinha onde cair morta? Como ela pagaria para escrever, editar, publicar e distribuir os periódicos por toda a corte? Sem contar que, se prestar atenção, minutos antes de quase ser descoberta, ela estava se derramando em prantos no baile… E como teria dinheiro para ter uma carruagem a disposição para leva-la à eventual armadilha?