Artigo: pelo direito de NÃO ter religião

Não tenho religião. Alias, nunca tive. E não me faz a menor falta. Quando revelo isto, logo surge a fatídica pergunta: ‘Mas você não acredita em Deus?’. Respondo: ‘E o que uma coisa tem a ver com a outra?’
Depende da pessoa, faço outras argumentações e segue a vida. Mas confesso que muitas vezes respondi que ‘Acredito’ muito mais para encerrar a discussão.
Hoje em dia, com tanta gente louca não medicada e solta por aí, tenho profunda preguiça de discussão. Principalmente quando percebo que a pessoa ‘não quer discutir’. Ela quer ‘impor’.

Editorial de moda para a Revista Residenciais (Abril 2012) assinado por Jorge Marcelo Oliveira (moda), Touché Studio Imagem (foto), Tandi Steinle (beleza) e Fernanda Mattos (top) @ Direitos Autorais Reservados

Pois bem… Sábado pela manhã, antes de ir para a casa do Flávio, passei numa farmácia para comprar um paracetamol. Na fila do caixa, ouço o diálogo entre duas mulheres. Uma comentava o alto valor do antiácido e a outra disse que não comprava porque usava bicabornato. Em seguida, disse: ‘Mas tenho que falar baixo. Não pega bem falar isto numa farmácia’.
Não resisti, me virei e perguntei: ‘Bicabornato? E funciona?’ Ela respondeu que sim.
Logo ouço: ‘caixa livre’.

Editorial de moda para a Revista Residenciais (Abril 2012) assinado por Jorge Marcelo Oliveira (moda), Touché Studio Imagem (foto), Tandi Steinle (beleza) e Fernanda Mattos (top) @ Direitos Autorais Reservados

Menos de um minuto depois, esta senhora se aproximou e perguntou: ‘Você é amigo da Ana, né?’ Indago ‘Qual Ana?’. Ela citou o nome de uma vizinha, que está a dois continentes de distância do que considero minha amiga. Respondi: ‘Sei quem é’.
Ela retirou um envelope de uma sacolinha de plástico, me entregou e saiu.
Abro: é uma mensagem religiosa. De crente, lógico! Só eles que fazem este tipo de abordagem. Comento com a moça do caixa: ‘Mas eu nem sou religioso!’
Pensei em deixar o envelope no caixa, mas não iria contribuir para sujar o lugar com aquilo. Guardei o cartão no envelope e sai.
Do lado de fora da farmácia encontrei a mulher conversando com um senhor. Estava pronto para devolver o envelope, como já fiz isso inúmeras vezes, mas me deu preguiça. Pensei: ‘jogo esta bosta no lixo assim que estiver na casa do Flávio!’.
No carro, fiquei me questionando:
• ‘Por que não devolvi isso naquela hora?’
• ‘Quem ela pensa que é para me abordar para entregar um negócio religioso?’
• ‘Se não tivesse sido curioso e feito a pergunta sobre o bicabornato, ela não me entregaria nada?’
Pois é… Ser fofo com gente estranha nunca dá muito certo.

Editorial de moda para a Revista Residenciais (Abril 2012) assinado por Jorge Marcelo Oliveira (moda), Touché Studio Imagem (foto), Tandi Steinle (beleza) e Fernanda Mattos (top) @ Direitos Autorais Reservados

Sei que é tudo isso é uma bobagem, mas depois fiquei puto da vida por não ter devolvido a droga do envelope.
Também já passei várias vezes pela situação de ‘ser convidado’ para ir ao centro, igreja, templo, sinagoga…
Quem realmente me conhece não faz isso’, pois me conhece e me respeita. O problema é que a maioria das pessoas não respeita ninguém. Tudo mundo quer impor sua verdade.
Não sou intolerante. Entendo que a pessoa está em crise e acredita ter encontrado atenuantes nestes lugares, ela se empolga em compartilhar seu momento. Mas, por que diabos querem me levar junto?
Tenho a resposta pro forma: ‘Ah, eu sei onde é. Quem sabe um dia?’
Eu tenho todo o direito de não querer ter qualquer religião e também não querer ir a qualquer lugar religioso.

Editorial de moda para a Revista Residenciais (Fevereiro 2013) assinado por Jorge Marcelo Oliveira (moda), Touché Studio Imagem (foto), Tandi Steinle (beleza) e Aline Giusti (top) @ Direitos Autorais Reservados

Tenho simpatia pelo Budismo e pela Espiritualidade. No passado, li alguns livros da Zibia Gaspareto. Gostei. Como ficção é um gênero bem interessante. Se eu acredito que aquilo é verdadeiro ou não… É outra conversa!
Acho interessante a dança nos terreiros de religiões afro-brasileiras. Muito mais porque amo dança.
Gosto da ideia que existe algo além da vida. Porém, isso não significa que quero ir me aprofundar no assunto.

Editorial de moda para a Revista Residenciais (Fevereiro 2013) assinado por Jorge Marcelo Oliveira (moda), Touché Studio Imagem (foto), Tandi Steinle (beleza) e Heloisa Sautini (top) @ Direitos Autorais Reservados

Lá nos anos 90, uma pessoa que não tinha muito critério sobre o que era religião… D. Vera me obrigou a acompanha-la num centro próximo ao Iguatemi Campinas.
Depois de uma longa espera, entro numa salinha e um tio começou a fazer perguntas sobre minha vida pessoal. Fui respondendo. Quando disse que era gay, ele se transformou. Notei até seu corpo enrijecer. Afirmou que eu precisava ‘mudar’… Que ‘Deus colocou na terra homem e mulher’… E falou outras merdas homofóbicas. Ao término, me indicou uns livros.
Até fiquei curioso em saber se realmente os ‘espíritos’ eram preconceituosos, mas naquela época, na casa dos 20 anos, mesmo não sabendo como responder, eu já estava vivendo plenamente e feliz minha homossexualidade. E não era um tio que nunca me viu mais gordo iria falar algo que mudaria isso.

Editorial de moda para a Revista Residenciais assinado por Jorge Marcelo Oliveira (moda), Tácito (foto), Tandi Steinle (beleza) e Camila Helen Grant e Gabriela Citolin (tops) @ Direitos Autorais Reservados

Anos depois, acompanhei meu falecido amigo Sérgio em duas ou três palestras naquele centro espírita na Avenida Irmã Serafina. No quarto convite, recusei. Ele perguntou o motivo. Respondi: ‘Achei bem entediante e nada do que foi falado parecia alguma novidade’.
Ele falou: ‘Talvez você realmente não precise disto’. E nunca mais tocamos no assunto.
Não gosto de rituais. Todas as vezes que fui obrigado a participar – seja em coisas ligadas a família ou cerimonias – participo por falta de opção ou por educação. Do casamento, só gosto da parte da festa… Da comida, bebida, docinhos e bolos.

Invocação do Mal 2 @ Reprodução

Eventualmente, quando acontece de entrar numa igreja católica vazia, eu me sento no fundo, pois posso admirar a arte da construção do prédio, nas esculturas, desenhos e vitrais. Tudo é lindo, mas está ótimo.
Já aconteceu de, envolvido pelo maravilhoso silêncio destes locais, respirei fundo e mentalizei uma oração qualquer.
Mas em seguida, me pego olhando as esculturas… Esperando que abram os olhos… Igual nos filmes de terror. Dou risada. É hora de ir embora.
E segue a vida.