A ideia de que o brasileiro nasceu com o futebol no DNA é uma das construções culturais mais bem-sucedidas do século 20. Embora o esporte já estivesse em expansão entre diferentes camadas da sociedade desde as primeiras décadas do século, a noção de que o futebol representa uma característica natural e inevitável da identidade brasileira não surgiu espontaneamente nos quintais, ruas e várzeas do país. Ela foi consolidada a partir da convergência entre projetos políticos, interesses midiáticos e interpretações intelectuais que transformaram um esporte popular em um dos principais símbolos da nacionalidade brasileira.
O futebol já vinha crescendo desde os anos 1910 e 1920, sobretudo nos grandes centros urbanos. Originalmente associado às elites brancas e aos setores mais privilegiados da sociedade, o esporte passou gradualmente a atrair trabalhadores, operários e atletas negros. A profissionalização do futebol, oficializada em 1933, acelerou esse processo e ampliou as oportunidades para jogadores oriundos das classes populares, embora a presença de atletas negros em clubes importantes já existisse anteriormente.

Na época, o governo de Getúlio Vargas enfrentava o desafio de integrar um país marcado por profundas divisões regionais, sociais e econômicas. O Estado Novo buscou construir uma identidade nacional capaz de fortalecer o sentimento de pertencimento coletivo e legitimar o novo projeto político. Nesse contexto, o futebol tornou-se uma ferramenta especialmente útil. Não foi o único símbolo mobilizado pelo regime — ao lado dele estavam o samba, o rádio, as festividades cívicas e o trabalhismo —, mas poucos elementos possuíam um potencial tão grande para gerar identificação popular.
Ao mesmo tempo, o governo percebeu que os estádios poderiam funcionar como espaços de exaltação nacional. As partidas internacionais passaram a ser tratadas como representações simbólicas da própria nação, e o torcedor foi gradualmente incorporado a uma narrativa de patriotismo esportivo que associava o sucesso da seleção ao orgulho nacional.
Quem ajudou a transformar essa construção política e cultural em um fenômeno cotidiano foi a imprensa esportiva. Nesse processo, destacou-se o jornalista Mário Filho, responsável por revolucionar a cobertura do futebol brasileiro. À frente do “Jornal dos Sports”, ele compreendeu que o esporte precisava deixar de ser narrado apenas por meio de estatísticas e resultados para se tornar uma grande história coletiva.

Mário Filho ajudou a popularizar rivalidades, apelidou confrontos de clássicos, aproximou o público da vida dos jogadores e transformou partidas em verdadeiros dramas emocionais. O futebol passou a ser apresentado não apenas como entretenimento, mas como um elemento central da experiência nacional. A cobertura esportiva deixou de ser predominantemente técnica e assumiu um caráter épico, reforçando a ideia de que o futebol ocupava um lugar privilegiado na cultura brasileira.
Para sustentar intelectualmente essa narrativa, surgiram interpretações que buscavam explicar a suposta singularidade do futebol praticado no Brasil. Entre seus principais formuladores estava o sociólogo Gilberto Freyre. Durante a Copa do Mundo de 1938, ele passou a defender que o estilo brasileiro de jogar possuía características únicas derivadas da formação histórica e cultural do país.
Segundo sua interpretação, elementos como a ginga, o drible, a improvisação e a criatividade em campo estariam ligados à miscigenação que marcou a sociedade brasileira. O futebol deixava de ser apenas um esporte e passava a ser apresentado como uma expressão artística da identidade nacional. Essa leitura contribuiu para consolidar uma visão utópica das relações raciais brasileiras e forneceu parte das bases intelectuais para aquilo que posteriormente ficaria conhecido como o mito da democracia racial.

A narrativa era sedutora. Se jogadores negros e brancos brilhavam juntos nos gramados, vendeu-se a ideia de que, o futebol era a prova de que o Brasil havia superado seus conflitos raciais. O sucesso esportivo era utilizado como evidência de uma convivência harmoniosa entre diferentes grupos sociais. Lógico que era uma visão branca da realidade.
Historiadores contemporâneos e intelectuais do movimento negro apontam os limites e os efeitos políticos dessa interpretação. Ao transformar o futebol em símbolo máximo da integração nacional, a sociedade passou a ignorar ou minimizar problemas estruturais que permaneciam presentes fora dos estádios. A ascensão de alguns atletas negros ao estrelato era utilizada como demonstração de igualdade de oportunidades, enquanto a exclusão social, a violência racial e a desigualdade continuavam afetando milhões de brasileiros. Mesmo assim, esta fantasia entrou para o imaginário popular como um fato.

Nesse sentido, o futebol funcionou não apenas como um espaço de celebração popular, mas também como um poderoso instrumento simbólico. A crença de que o sucesso de atletas negros representava a superação do racismo ajudou a fortalecer a ideia de que o preconceito seria um problema menor ou inexistente no país. Muitas denúncias de discriminação foram relativizadas sob o argumento de que uma nação que idolatrava jogadores negros não poderia ser racista.
O resultado foi a consolidação de uma narrativa nacional extremamente poderosa. A ideia de que o futebol é uma paixão natural dos brasileiros não nasceu exclusivamente da ação do Estado, da imprensa ou dos intelectuais. Ela também foi alimentada pela identificação genuína de milhões de torcedores com o esporte. Entretanto, a transformação do futebol em símbolo máximo da identidade nacional foi amplificada e moldada por interesses políticos, estratégias midiáticas e interpretações culturais que ajudaram a converter um fenômeno popular em um dos pilares do imaginário brasileiro.

A frase “o futebol é uma paixão nacional”, repetida até hoje como uma verdade incontestável, talvez diga menos sobre uma característica inata do povo brasileiro e mais sobre o sucesso histórico de uma narrativa construída ao longo de décadas.
Uma narrativa que ajudou a unificar o país em torno de um símbolo comum, mas que também serviu para ocultar contradições sociais que continuam presentes muito além das quatro linhas.

Muito boa sua avaliação, sobretudo porque estamos em época de Copa do Mundo e muita gente ( e bota muita nisso!) se deixa levar pelo conceito de que ainda somos a chamada “Pátria de chuteiras”, termo já bastante usado para enaltecer nosso escrete verde-amarelo. A mídia contribui com sua cota para isso e agora temos um ingrediente novo nessa paixão quase desvairada: as casas de apostas online, cujos faturamentos devem dobrar até o final da competição, enquanto o povo fica cada vez mais endividado. Outro bordão que me vem à mente é aquele velho conhecido: “O futebol é o ópio do povo!”. E haja paixão fabricada em laboratório.
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