Sobre moda, blogs e publicidade…

Artigo do Publisher Jorge Marcelo Oliveira
Jorge Marcelo Oliveira - Perfil - Agosto 2014
Jorge Marcelo Oliveira @ Juliano Silveira

 

 Moda é meu mercado de trabalho desde a década de 90. Vivenciei diversas mudanças. Acompanhei desfiles, modelos, estilistas, marcas, lojas, shoppings que surgiram e sumiram do mercado. Gente que um dia se tornou estrela e no dia seguinte, caiu em desgraça completa.
Gosto de pensar em moda como algo além do óbvio. Claro que moda também se alimenta uma cadeia de interesses fúteis e banais. Existe o efêmero, o modismo ou a tendência que tem um tempo de existência. Coisas que são febres numa temporada tornam-se ultrapassadas em outra. O mecanismo industrial vive deste desejo do novo. É bizarro, óbvio, mas não tem como mudar.
A transexual Lea T - Vogue Brasil @ Zee Nunes (4)
A transexual Lea T – Vogue Brasil @ Zee Nunes

Campos sociais 

Moda tem uma ligação uterina com História, Sociologia e Comunicação. Lembre-se que ‘moda é um instrumento de comunicação. A roupa  é apenas um destes instrumentos, assim como a beleza, decoração, cultura, gastronomia, turismo, informática, entre outros. Publicações impressas (quem lê?), como Vogue, ELLE, Harper’s Bazzar, L’Officiel , MAG, V Magazine, W Magazine, entre outras, entenderam disto. Todas seguem a fórmula de editoriais, desfiles, lançamentos, entrevistas, campanhas, mas também abordam outros assuntos deste universo.
Tem um lado bem bacana, que pouca gente fala sobre a moda: ela é um mercado que acolhe minorias. Entenda: vivemos num mundo dominado pelo ‘Homem/Branco/Heterossexual/Rico/Olhos Claros/Magro’. Sendo assim, todos que não estão num destes campos já se encontram em desvantagem. 
Moda é um poucos mercados, onde mulheres, gays e negros atingem cargos de chefia e ganham bons salários – em alguns casos, como de Modelos do Primeiro Time, muito mais altos do que em outros setores. Ou seja, ela também pode ser um espaço para discussão sobre feminismo, racismo, homofobia, padrões físicos, entre outros.
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Mimos, presentinhos, lembrancinhas, gifts… @ Reprodução
Último fenômeno 
Os blogs foram os mais recentes fenômenos que surgiram a entrar no mercado da moda. Com a ideia inicial do ‘look do dia’, a informação ganhou velocidade e resultados mais eficazes do que algumas campanhas. No país, cinco ou seis blogueiras de moda ultrapassaram a barreira de comunicadoras para se tornarem empresárias. Acho válido.
Confesso, porém, que já tive preconceito com alguns blogs de moda. Achava tudo igual e não entendia a confusão entre jornalismo e publicidade. O tempo foi me respondendo e hoje, entendo que eles foram importantes para colocar às claras uma prática que jornalista sempre temeu: o jabá e a publicidade.
Sim, as blogueiras provaram que isto é uma bobagem e nem compraram este discussão. Elas ensinaram à uma legião de profissionais das mofadas redações do mundo, que ‘Não existe mídia espontânea. Existe venda de um produto’. Isto foi tão forte que mudou a visão das agências de publicidade sobre estas novas mídias. 
No Brasil, o número de blogueiras de moda caiu. Hoje, ou elas aprendem a empresariar seus blogs ou morrem na praia. Alguns foram para outros campos, como beleza (e se deram muito bem) e outras rumaram para outros campos, principalmente gastronomia. Em Campinas, a coisa ficou tão confusa, que hoje, existem blogues que se transformaram no famoso Borracharia & Frutos do Mar. Ou seja, abordam de tudo. Basta a empresa mandar convite para cinema, jantar, abertura de loja, esmalte, isotônico, panetone, lápis, gel lubrificante, etc, que elas publicam sem piscar. Pagando bem que mal que tem? Nenhum, óbvio! Mas também, quer saber? Cada um faz o que quer! 
De moda ou não, as blogueiras espertas aprenderam a cobrar por cada publicação, incluindo no Instagram ou no Snapchat. E quer saber: elas estão certas! Toda publicidade precisa ser paga. Se é para divulgar um produto ou um serviço, precisa haver uma troca – nem que seja o envio do produto para experimenta-lo ou em permuta pelo serviço. 
Jornalismo ou publicidade
Além da publicidade, é importante alimentar um blog com conteúdo. Afinal, você tem leitores que querem informação. Mas precisa ser bem antenado para separar o que é informação do que é publicidade. Só se aprende com o tempo, óbvio! Mas precisa ficar esperto. 
Falando em jornalismo… E como fica o papel das assessorias de imprensa nesta várzea? Acredito que seja o momento mais delicado. Com a escassez de espaço gratuito nas mídias impressas e na TV, os olhares se voltaram para os veículos online, que cresceu de forma assustadora. Separar o que é bom e o que é porcaria, não é nada fácil. Piora ainda mais separar quem faz um bom trabalho, seja cobrando ou não, dos oportunistas. 
Complicado explicar para o cliente que seu produto não estará naquele veículo se você não tiver algum investimento. Abrir comércio, promover abertura e acreditar que a imprensa se jogue sem pestanejar em troca de uma coxinha é uma erro fatal. Foi-se o tempo. Hoje, ou aprende-se com faz uma boa ação ou morre-se na praia.
Triste daquelas assessorias que ainda vivem mandando sugestão de pauta com fotos de produtos com o título: ‘Dicas de presentes de Páscoa!’ É o auge da cara de pau! Precisa ser muito trouxa para publicar isto, sem ganhar um produto, fechar uma permuta ou o valor do post pago. 
(Artigo: Jorge Marcelo Oliveira)