Clássicos do cinema: Crepúsculo dos Deuses

Joe Gillis (William Holden) é um roteirista que procura uma boa ideia que possa ser seu primeiro sucesso em Hollywood. Um dia, seu carro quebra em frente a uma mansão na famosa Sunset Boulevard (Los Angeles), que, à primeira vista, parece estar abandonada. Contudo, ele é recebido por um mordomo, que o encaminha para sua patroa, que parece o confundir com outra pessoa.

Crepúsculo dos Deuses - 1950 @ Reprodução
Crepúsculo dos Deuses – 1950 @ Reprodução

Esta mulher é Norma Desmond, que foi a maior estrela do cinema mudo. Sua carreira terminou quando o cinema ganhou som (em 1927). Com isto, se isolou em sua casa ao lado de seu mordomo, Max Von Mayerling (na realidade, um diretor de cinema do cinema mudo e seu ex-marido). Norma vive numa espécie de letargia, como se seu mundo tivesse sido congelado. Ela não aceita que foi esquecida. Acredita, isto sim, que está fora das telas pela falta de papéis a altura de seu talento.

Crepúsculo dos Deuses - 1950 @ Reprodução
Crepúsculo dos Deuses – 1950 @ Reprodução

Norma se apaixona pelo escritor. Muito mais jovem e sem dinheiro, ele aceita. Acredita que ela poderá abrir algumas portas no cinema. O processo pelo o qual esta mulher passa em nome desta paixão raramente foi tão bem explorado pelo cinema. O roteiro de Charles Brackett é o melhor retrato sobre a relação “gigôlo/cliente”, tratada com primorosa sutileza. Sem contar a forma como os personagens foram construídos, com tamanha elegância e dignidade. Amargo e cínico, continua o melhor retrato sobre ter e perder a fama e o sucesso. Numa Era de Celebridade que nunca acaba, ele continua atua. É uma aula de roteiro para qualquer amante de cinema.

Crepúsculo dos Deuses - 1950 @ Reprodução
Crepúsculo dos Deuses – 1950 @ Reprodução

O filme é Crepúsculo dos Deuses  (Sunset Boulevard no original), produção de 1950, considerado um dos clássicos de Hollywood e sua aura “camp” – gênero que os gays adoram – se mantem intacta.
O maestro desta obra é o austríaco Billy Wilder, responsável por ‘Ninotchka, ‘Sabrina’, ‘O Pecado Mora Ao Lado’, ‘Quanto Mais Quente Melhor’, ‘Testemunha de Acusação’ e ‘Se Meu Apartamento Falasse’. Aqui, sua direção atinge o ponto mais alto de sua carreira, guiando com perfeição tanto a parte técnica (tomadas magistrais, copiadas por toda geração futura de cineastas) quanto a direção de atores.

Crepúsculo dos Deuses - 1950 @ Reprodução
Crepúsculo dos Deuses – 1950 @ Reprodução

O filme conta com os figurinos assinados por Irene Head – vencedora de oito Oscar (de um total de 35 indicações), que transitou pelo glamour hollywoodianos das décadas de 20 a 50, época que Norma viveu seu auge e decadência. E finalmente, temos Gloria Swanson como Norma Desmond. Definição do conceito de Atriz de Cinema, ela vive num mundo de sonhos, daqueles que eram construídos pelos produtores de cinema, no qual a astros e estrelas vivem num universo paralelo aos mortais. Assim como Blanche Dubois (personagem de Um Bonde Chamado Desejo), Norma é fascinante, mas trágica e solitária.
Gloria Swanson foi a estrela máxima do cinema mudo (ao lado de Póla Negri e Theda Bara, símbolos sexuais do período e Clara Bow, a garota com “algo mais”, que todos os homens queriam se casar) e com o surgimento do som, em 1927, sua carreira entrou em declínio. Somente com Crepúsculo dos Deuses, em 1950, seu nome voltou ao estrelato.

Crepúsculo dos Deuses - 1950 @ Reprodução
Crepúsculo dos Deuses – 1950 @ Reprodução

Segundo o livro ‘Tudo Sobre o Oscar’, na noite de entrega do Oscar 1951, quando Gloria perdeu o prêmio de melhor atriz para Judy Holliday, ela declarou aos jornalistas: “Bem, isso quer dizer que o velho cavalo de guerra tem que voltar ao trabalho”.
Quanto a Norma Desmond… Ela se tornou uma figura da cultura pop, que representa o melhor retrato da decadência, do esquecimento e na amargura que Hollywood já produziu.

(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira)