Elke Maravilha morre aos 71 anos

Pensa uma pessoa com estilo. Na óbvia cabeça de alguns fashionistas surge a imagem de Audrey Hepburn (na realidade, as pessoas a citam em função aos personagens que ela criou, principalmente ‘Bonequinha de Luxo’), Grace Kelly (mesma coisa, imagem que o cinema projetou e depois como Princesa de Mônaco), Costanza Pascolato ou Gloria Kalil – empresárias e jornalistas de moda. Sim, são figuras que se eternizaram como elegantes e sofisticadas, no conceito mais classe média que podemos ter. Mas, estilo? Sempre preferi a contramão. Gente que sai do lugar comum, que não teme a crítica e está pouco se lixando para manuais sobre ‘certo’ e ‘errado’. Nesta seara, Elke Maravilha é o primeiro nome de qualquer lista.Elke Maravilha
Ela tinha estilo. Muito. Na realidade, ela é uma aula de estilo. Pensa bem: era pessoa que se ‘montava’ a cada aparição pública, usando perucas, maquiagens, roupas e acessórios exagerados, sem se preocupar se estava ou não seguindo o Dresscode exigido, aliado a um bom humor contagiante, um sorriso largo, que recebia com carinho a quem for que seja que pedisse uma foto e desconstruía todos os conceitos quando começava a opinar sobre diferentes assuntos. Sim, além do visual e ‘joie de vivre’, Elke era uma mulher muito inteligente. Falava não sei quantas línguas e tinha uma opinião forte sobre qualquer assunto que fosse questionada.
Eu me lembro do quanto me surpreendia com suas entrevistas. Quando você acreditava que ela seguiria o roteiro, ela descontruía o argumento do entrevistado. Elke Maravilha @ Reprodução
Origem
Elke Grunnupp nasceu na Rússia, em 1945. Chegou ao Brasil ainda criança com os pais, para morar em Minas Gerais. Começou como manequim (na época, não se falava modelo), aos 24 anos. A carreira em televisão começou na “Discoteca do Chacrinha”. Depois fez novelas, filmes e peças. No cinema, seu grande momento foi em ‘Xica da Silva’. Na televisão, na minissérie ‘Memórias de um Gigolô’. Foram papéis que comprovaram que seu talento era maior do que apenas uma Personalidade.
Elke Maravilha @ Reprodução3Passou seis dias presa durante o regime militar por desacato após rasgar um cartaz de procurado com a foto do filho da estilista Zuzu Angel, para quem desfilava.
Foi também secretária, bibliotecária, bancária, professora, tradutora. Casou-se várias vezes, já disse ter feito aborto, foi rainha de associação de prostitutas no Rio, estrela do cinema e viveu a vida intensamente.
Elke Maravilha @ Reprodução2Encontro
Eu a encontrei duas vezes. Numa delas, na inauguração de um club gay em Campinas, fiquei intimidado, mas sorri quando a vi. Ela devolveu com um beijo caloroso no rosto. Alguns anos depois, a encontrei no Gay Day no Hopi Hari em junho de 2003. Desta vez, não resisti e pedi uma foto (isto numa Era distante dos Smartphones, Selfies, Redes Sociais…).
Elke Maravilha @ murilocardoso.com.brEla morreu à 1h da madrugada, no Rio de Janeiro. Estava internada há um mês para tratar de uma úlcera. Teve falência múltipla dos órgãos. Fiquei triste. Adorava seu bom-humor contagiante, sua loucura criativa e sua inteligência. Ela comprovava minha teoria: Bom-humor é uma característica de pessoas inteligentes!

2 comentários

  1. Em primeiro lugar, obrigada por homenagear essa figura maravilhosa que sempre será lembrada com muita alegria e por seu jeito contagiante, alegre e espontâneo!! Elke era isso! Alegria, cores, brilho, extravagância!
    Elke se foi mas vai permanecer pra sempre em meu coração!
    Beijos minha querida

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