Artigo: Perfeccionista ou controlador

Artigo assinado pelo Editor do MONDO MODA Jorge Marcelo Oliveira

 

Jorge Marcelo Oliveira @ Divulgação
Jorge Marcelo Oliveira @ Divulgação

‘Casa cenário’ é um espaço tão bonito que parece ter seguido todas as regras da decoração sem pular uma linha. As cores, as padronagens, as medidas, os espaços, os verdes… Enfim… É tudo tão perfeito que está pronto para ser fotografado para um editorial na Casa Vogue. Sabe como? Então… Tudo tão bonito… Limpo… Organizado… Que parece cenário. Quem nunca se incomodou com isto?
Adoro organização. Assim como a limpeza. A ideia de morar num espaço com este me empolga, claro. Porém, tenho cachorro. Dois para ser mais exato. Por mais que estejam limpos, higienizados e tosados, eles deixam pelos – principalmente em almofadas e tapetes. Desta forma, por mais que goste da perfeição, diariamente, meus animais me ensinam que isto não existe. Ou seja, que o mundo não gira em torno do meu umbigo.
white-roomHá algumas semanas revi uma cena do filme ‘Mamãezinha Querida’. É um filme de 1981 que retrata a vida de uma atriz de Hollywood chamada Joan Crawford que fez muito sucesso entre os anos 30 e 40. Era conhecida como mulher rígida e controladora. O filme é descrito como drama, mas, na realidade, é um filme de terror. A cena que ficou imortalizada é aquela que ela espanca com cabides e despeja uma sucessão de agressões verbais em cima da filha adotiva, Cristina – que o objeto preferido dos ataques da mulher. Para explicar tal comportamento, o roteiro sugere que sua carreira estava em decadência e para extravasar sua raiva, ela atingia quem estava próximo – no caso, sua filha adotiva.

Faye Dunaway como Joan Crawford @ Divulgação
Faye Dunaway como Joan Crawford @ Divulgação

Em sua estreia, a crítica americana detonou o filme, principalmente questionando a veracidade da cena. Piora com a atuação de Faye Dunaway – considerada exagerada e caricata. Os fãs de Joan também detestaram. Poucas vozes acreditaram que aquilo pudesse ser verdade. Porém, em alguns livros sobre a história de atores de Hollywood, é comum encontrar os relatos descritos no filme. Ninguém costuma poupar a imagem da atriz. Dizem que, somente Bette Davis, era páreo para o tamanho do ego de Joan.

Depois de rever esta cena, fui procurar no You Tube por outras. Encontrei uma que Joan confere a limpeza de uma sala, passando os dedos sobre móveis e arrastando vasos. Novamente, o perfeccionismo volta à tona.

A ideia de perfeição tem ligação direta com controle e rigidez. Pessoas controladoras gostam de coisas perfeitas. Pelo menos dentro de uma ótica muito particular de perfeição. Estas pessoas prestam atenção aos detalhes como se fossem generais que observam sua tropa.
Acho interessante as enquetes feitas por programas de televisão nas ruas com aquelas perguntas, tipo: “Qual suas melhores qualidades e piores defeitos?”. Muitos enchem a boca e dizem: “Sou perfeccionista”.
Poucas, porém, tem real dimensão do que significa isto. Dizem: “Sou perfeccionista. Gosto de tudo no lugar”. Na realidade, ela está avisando: “Sou controladora que tenho de medo de mudanças. Quero que as pessoas pensem como eu! Assim tenho menos trabalho de questionar. Gosto de estar no controle. Assim, meu ego é alimentado, pois, no fundo, sou um poço de insegurança”.
Perfeccionistas, pensem nisto!