Uma incrível série chamada ‘The Handmaid’s Tale’

Publicado em 1985, o livro The Handsmaid’s Tale/O Conto da Aia, da escritora Margareth Atwood, é uma distopia, como 1984, do autor George Orwell. No entanto, em tempos de avanços de pautas conservadoras e bancadas religiosas, o livro traz alguns aspectos ainda mais aterrorizantes. Num futuro, os Estados Unidos sofreram um golpe militar, as disputas pelo poder provocaram uma catástrofe ambiental e o totalitarismo e o fundamentalismo religioso se confundiram, criando um rígido sistema social, como em 1600. Surge a República de Gilead.
Com a contaminação do solo e das águas, a fertilidade humana decaiu e as mulheres, que inicialmente perdem seus empregos e todos seus direitos sociais – não podem escrever, ler ou falar sem permissão – tornam-se parte essencial para a manutenção do sistema. As aias – mulheres em idade fértil ou que já deram à luz em algum momento de suas vidas – são treinadas – por Tias – para engravidar, parir, amamentar seus bebês por algum tempo e entre entregá-los aos Comandantes e suas esposas. A cópula e os partos são ritualizados, com verdadeiras catarses que provocam um sentimento de união entre as Aias e as Esposas, que duram apenas alguns momentos até os bebês serem entregues.

The Handmaid’s Tale Season 0ne 2017 @ Divulgação

A transcrição desse universo para uma série de TV streaming (no caso, o Hulu, que não é disponibilizado no Brasil) coube a Bruce Miller (The 100) e Ilene Chaiken (The L Word). A estória é narrada por Offred (uma atuação sensacional de Elizabeth Moss, que durante sete anos foi a Peggy Olson, da série ‘Mad Men’), uma mulher que foi obrigada a se tornar uma Aia. Ela descreve a estranha dinâmica da sociedade de Gilead, enquanto relembra momentos de sua vida anterior, assim como os primeiros anos no novo governo.
As Aias vestem hábitos vermelhos semelhantes às roupas das freiras do Século XVII e só podem circular pelas ruas em duplas. As Martas, que não podem mais gerar bebês, se dedicam aos trabalhos domésticos. As Tias são responsáveis por educar as aias para que elas ajam com modéstia e se concentrem apenas em engravidar, sem representar uma ameaça às esposas mais velhas e estéreis.

The Handmaid’s Tale Season 0ne 2017 @ Divulgação

Offred (o nome representa a casa que as aias pertencem, como Of+Fred, ou seja De Fred, o nome da casa que ela vive) chega a casa de um Alto Comandante (Joseph Fiennes, o padre da segunda temporada de American Horror Story), casado com a rígida Serena Joy (Ivone Strahovski, de ‘Dexter’). Sempre com um pensamento crítico que não pode manifestar, aos poucos, ela conhece outras pessoas que fazem críticas ao sistema, com quem possa trocar informações e obter algumas notícias sobre sua antiga família ou sua melhor amiga Moira (Samira Wiley, a inesquecível Poussey das quatro primeiras temporadas de ‘Orange Is The New Black’). Paralelo a isto, Offred tenta entender a estranha dinâmica estabelecida entre o Comandante, a Esposa, o motorista e as Martas.

A série é assustadora por mostrar como direitos duramente conquistados podem ser ameaçados pelo uso da força e por expor como a religião pode servir de justificativa para garantir os privilégios de uns e a miséria de outros. O ponto curioso é acompanhar o quanto o governo em Gilead oprime as mulheres – até as esposas dos comandantes, mas também os beneficiados pelo regime, que encontram restrições e buscam formas de driblar a rigidez do sistema.
Em um texto para o Guardian, a escritora Margareth Atwood contou sobre o impacto do livro mais de 30 anos após sua publicação. Nesta reflexão, ela encontra o motivo de sua distopia ser tão perturbadora. “Criei uma regra para mim: não queria usar alguma coisa que os seres humanos já não tivessem feito em algum lugar ou tempo, ou para os quais a tecnologia ainda não tenha sido inventada”.
Mais do que uma série sobre a redução da mulher ao seu papel reprodutivo, The Handmaid’s Tale provoca questões sobre a família, amor, desejo, sexo e a falta de controle sobre o próprio corpo. Diante do horror de um sistema totalitário, religioso e violento, a série aborda a resistência, ainda que nos pequenos atos cotidianos.

The Handmaid’s Tale Season 0ne 2017 @ Divulgação

The Handmaid’s Tale é uma série para quem aprecia estórias bem escritas, que provocam questionamento, aliadas a uma direção e produção afiadas. É um programa com um alto grau de sofisticação em sua narrativa.
Como a cereja do bolo, a atuação de Elizabeth Moss. Magistral. Assustadora. Incrível. Num mesmo episódio, ela transite diversas emoções até no silêncio de sua personagem, dominando seu corpo até nos pequenos gestos. É uma interpretação digna de todos os prêmios – para dizer, o mínimo.

Plus: a trilha sonora também é incrível. Entre as canções, You Don’t Own Me (Lesley Gore), Don’t You – Forget About Me (Simple Minds), Heart of Glass (Daft Beatles – Crabtree Remix), Fuck the Pain Away (Peaches), White Rabbit (Jefferson Airplane), Sweet Baby James (James Taylor), Nothing’s Gonna Hurt (Cigarettes After Sex), Daydream Believer (The Monkees), Can’t Get You Out of My Head (Kylie Minogue) e I Want A Little Sugar In My Bowl (Nina Simone).

(Fontes: IMDB, Leia Mulheres, Lyricsoundtrack)

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