Os 45 anos do filme ‘O Exorcista’

Foi em 1986 que passei em frente ao extinto Cinema de Bauru e vi uma faixa anunciando o Festival de Terror. Devia ser agosto, não lembro. Tinha um folder na porta do cinema com o anúncio de todos os filmes e seus respectivos cartazes em miniatura. Tudo em preto e branco, no sulfite. Coisa dos anos 80 – onde a impressão colorida era inacessível para muitos.
Era uma média de 15 filmes: ‘Sexta-feira 13’, ‘Dia dos Namorados Macabro’, ‘Mensageiro de Satanás’, Feliz Aniversário Para Mim’, ‘Reze para entrar Pague para Sair’, ‘O Enigma de Outro Mundo’, etc.
Os pôsteres ficavam na parede do cinema, do lado de fora e fui olhando um por um. Títulos com fontes satânicas, muito vermelho, facões pontiagudos apontando, um Minerador com uma máscara de gás e um machado ensanguentado na mão, um rapaz sendo devorado por porcos demoníacos… Tudo muito gore e óbvio. Mas um cartaz chamou a atenção: O Exorcista.
O Exorcista Poster 1973Fiquei intrigado com a ilustração do filme… Inquieto… Pensativo… “O que teria dentro daquele quarto que esse senhor está parado olhando pra ele numa noite nebulosa? Que luz é essa que surge da janela? Por que o título é roxo?”
Como eu só tinha 14 anos optei em arriscar um dos filmes na matinê, mesmo sendo evidente que a idade mínima era 18 anos.
O primeiro filme do Festival era ‘Sexta-feira 13 II’. Nunca tinha levado tanto susto na vida e adorei o enredo bobo do psicopata que mata os jovens que transam no acampamento.
No dia seguinte tinha a continuação. Assim, com o passar dos dias fui assistindo um a um os filmes que se tornariam clássicos do terror gore/trash. Encerrando a programação, estava lá… Ele… Poderoso… O homem parado em frente aquela janela extremamente iluminada por algo que eu nem sonhava o que viria a ser. Não tinha a mínima noção do que fazia um exorcista.
Naquele filme, na sessão das 14h, a gerente do cinema não queria me deixar entrar. Depois de muita insistência, aleguei que tinha visto todos os filmes do Festival e aquele seria apenas mais um, afinal, era o cartaz menos ameaçador que havia ali.

A sessão

Aquela sessão de cinema mudou minha vida. Lembro que até rezei na cena auge do exorcismo. Não tinha sangue, não tinha gente com cabeça decepada, não tinha floresta com chuva à noite, não tinha cabana em local isolado, não havia vísceras, enfim… Não tinha absolutamente nada que tinha visto nos filmes anteriores.
A cena inicial, no Iraque… Que raios um filme de terror tinha uma cena tão clara nas ruínas de um lugar iluminado pelo sol?
Logo no final desse prólogo, quando aquele arqueólogo se coloca frente a frente com aquela estátua de demônio corroída pelo tempo e o vento levanta a poeira daquele ambiente hostil, já imaginava que aquele filme seria arte pura.
Durante os 122 minutos a plateia da sala permaneceu muda. Quando a luz acendeu, pareceu que todos estão hipnotizados por uma força estranha. Foi uma sensação de voltar pra realidade, mas agora, com medo de que o mal existisse e pudesse, de fato, fazer aquilo com uma pessoa inocente.

Willian Peter Blatty @ Acervo Pessoal
O autor Willian Peter Blatty na celebração que tornou as escadas do filme um patrimônio histórico em 2015 @ Acervo Pessoal

Ao completar 45 anos na quinta-feira, 26 de dezembro de 2018, O Exorcista se consolida como um clássico do terror. O único do gênero a ser indicado ao Oscar de “Melhor Filme”, ganhando dois: Melhor roteiro adaptado e Melhor Mixagem de Som. O diretor William Friedkin era dono de um Oscar em 1971 por ‘Operação França’, mas ‘O Exorcista’ nunca mais ia deixa-lo em paz.
A estreante Linda Blair foi aplaudida de pé na estreia do filme em Nova Iorque. Ellen Burstyn pegou o papel da mãe ateia que foi oferecido anteriormente a Jane Fonda, que ao recusar, disse que aquele era mais um filme de demônio e que cairia no esquecimento meses depois. Arrependeu-se meses depois do lançamento, quando Ellen ganhou uma indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro.

Bilhete de Willian Peter Blatty para Willian Friedkin @ Acervo Pessoal
Bilhete de Willian Peter Blatty para Willian Friedkin na estreia do filme nos EUA @ Acervo Pessoal

Numa tentativa de cumprir as exigências do diretor, a equipe técnica quase enlouqueceu nos 18 meses de filmagem e pós produção. O autor, Willian Peter Blatty, viu sua vida mudar completamente depois disso. Antes, autor de comédias, foi desafiado pela crítica que nunca escreveria algo que surpreendesse Hollywood. Erraram vergonhosamente nessa afirmação.
O livro vendeu mais de 13 milhões de cópias e colocou seu autor no mesmo nível que Stephen King, Mary Shelley e Edgar Allan Poe. Houve uma “sequência”, chamado ‘O Espírito do Mal (Legion)’, mas os fãs não aprovaram. Eu adorei, pois trouxe de volta o Tenente Kinderman investigando assassinatos cometidos por um serial killer morto anos atrás. O livro ganhou sua versão às telas como se fosse o terceiro ‘O Exorcista. Porém, ‘O Exorcista II – O Herege’ é literalmente uma heresia de tão ruim. Ao menos, em ‘O Exorcista III’, William Peter Blatty assumiu a direção, o que nos faz mergulhar na trama tensa do filme. Mas nada se compara ao primeiro. Depois do lançamento (tanto do livro quanto do filme), algumas editoras e produtoras adoraram o slogan “mais aterrorizante que O Exorcista”. Nada foi mais aterrorizante.
Talvez porque o filme não se trata de uma história de terror. Ele é sobre os mistérios da fé, a dúvida se Deus existe, porque o mal ataca pessoas boas e aflige todos ao seu redor, dois padres dando suas vidas por uma garota que eles jamais conheceram. A mãe acamada e à beira da morte culpando o filho de ter se tornado padre, enquanto ela é jogada numa clínica de doentes mentais, uma atriz famosa que não acredita em Deus e se vê cara a cara com o mal grotesco, dentro de sua própria casa. Assassinatos misteriosos e rituais de missa negra são mencionados ao longo do filme numa investigação exaustiva do Tenente Kinderman, que o leva a desafiar suas próprias convicções sobre fé.

Paulo Balderramas @ Acervo Pessoal
Paulo Balderramas @ Acervo Pessoal

Ao final dos 122 minutos, respira-se aliviado, mesmo com todo o terror, acredita-se numa força maior. Acredita que o bem sempre vai vencer o mal. Não por que você é temente a Deus, mas porque as pessoas ainda podem resgatar a bondade no fundo de seus corações – mesmo estando perturbadas por conflitos internos e descrentes da raça humana. É um exemplo de amor ao próximo e a certeza que tudo ficará bem.
O Exorcista não é um filme de terror. É uma obra que o amor está implícito em cada atitude dos personagens. Por isso é uma obra de arte.

O ator e diretor Paulo Balderramas escreveu esse artigo especial para o MONDO MODA para celebrar os 45 anos de estreia do filme nos Estados Unidos.
‘O Exorcista’ é seu filme favorito.

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