Sobre a cena de agressão em ‘A Força do Querer’

Novela é uma obra de ficção, mesmo assim, muita gente se esquece disto. Na segunda-feira (24/07), a cena que abriu a novela global A Força do Querer foi de uma briga envolvendo as personagens Joyce, Ritinha, Irene e Marilda dentro de um banheiro de um restaurante chic carioca. Numa situação de cumplicidade entre mulheres, Joyce e Ritinha batem em Irene, a amante e causadora da separação entre a primeira e seu marido, Eugênio. A quarta personagem, Marilda, ficou na porta, impedindo a entrada. Ou seja, ela também foi cúmplice.

Foi uma cena isolada e específica de uma novela protagonizada por cinco mulheres de personalidades diferentes, Bibi (Juliana Paes), Jeísa (Paolla Oliveira), Silvana (Lília Cabral), Ritinha (Isis Valverde) e Joyce (Maria Fernanda Cândido). São líderes de seus núcleos, recheados com outras mulheres emponderadas, que dão as cartas do jogo.

A Força do Querer – Cena da briga entre Joyce, Ritinha e Irene @ Estevam Avellar – Globo – Divulgação

Logo após as cenas irem ao ar, as redes sociais foram tomadas por reações distintas, entre aquelas que vibraram com outras que criticaram a cena. Normal. Redes sociais servem para isso mesmo. Até aí, tudo bem. Mas, no dia seguinte, pipocaram artigos condenando a cena. Alguns argumentos até tinham lógica, o problema, isto sim, era a falta de foco de uma questão muito simples: novela é uma obra de ficção. Não representa a vida real.
A ‘A Força do Querer’ está na metade do seu número de capítulos. Até aqui, ela apresentou situações reais sobre o universo feminino, colocando as mulheres como protagonistas soberanas. Os personagens masculinos, por outro lado, são bundões. Não existe um único que se salva. Todos, sem exceção, são marionetes. É uma novela feminista, na rasa concepção de ‘mulheres que dão as cartas e decidem o rumo de suas vidas’.

A Força do Querer – Cena da briga entre Joyce, Ritinha e Irene @ Estevam Avellar – Globo – Divulgação

É uma obra escrita por uma autora, Glória Peres, que se especializou em criar mulheres fortes que, podem até sofrer nas mãos de alguns homens, mas, no final, escolhem seus destinos. Na vida real, meus caros, quantas mulheres têm essas oportunidades?
É nesse ponto que a coisa pega. Repetindo: novela é obra de ficção. Pode até reproduzir algumas situações do mundo real, mas não deixa de ser uma ficção. São personagens de uma estória. Podem até reproduzir situações do dia-a-dia, mas não deixam de ser ficcionais. Uma cena de agressão numa novela choca porque, no fundo, quando estamos vendo uma ficção, o mundo ganha outras cores. É o momento de esquecer o que acontece da porta para fora de nossas casas. E vamos admitir: a violência no mundo real é muito pior do que vemos na telinha.

A Força do Querer – Cena da briga entre Joyce, Ritinha e Irene @ Estevam Avellar – Globo – Divulgação

O que chamou minha atenção sobre esse assunto é a certeza do quanto as pessoas estão cada vez mais chatas. Confundem a ficção com o real. Vivem num mundo à parte. Acreditam que, se não mostrar violência e agressão, isto não irá acontecer. É reação ingênua e infantilizada sobre a vida.
Pegando a cena de forma isolada. E se as personagens fossem pobres e negras que estivessem brigando num salão de beleza numa favela ou periferia de qualquer grande cidade, será que as reações seriam as mesmas? Será que o problema não está, isto sim, na identificação que as mulheres fazem, em ver uma mulher elegante, chic e bonita, como a atriz Maria Fernanda Cândido, a representante da ‘classe média alta’, com sangue nos olhos, descer do salto e partir para a agressão? Será que essa mulher, no fundo, não representou aquilo que muitas endinheiradas têm vontade, mas nunca tiveram coragem de fazer?
Ok. Se partirmos da lógica, qualquer tipo de agressão – real ou ficcional – é horrível. Ninguém, em sua sã consciência, gosta de ver. Mas, gente… Ela existe desde que o mundo é mundo.
Sendo assim: será que a violência encenada na novela global das 21h choca mais do que o que a mesma que foi apresentada minutos antes numa favela do Rio de Janeiro no Jornal Nacional? Ou será que a classe média brasileira só se choca quando vê seus ‘semelhantes’ baixando o nível, igual ‘aqueles outros’ que moram fora dos muros de seus condomínios?

A Força do Querer – Cena da briga entre Joyce, Ritinha e Irene @ Estevam Avellar – Globo – Divulgação

Morro de preguiça de gente que enxerga o mundo apenas por um plisma. Sabe aquelas pessoas que são seus amigos no Facebook, mas nunca curtem ou comentam nada que seja positivo, mas, naquele único dia que você fez um desabafo ou contou uma situação chata que vivenciou, a pessoa aparece? Ou seja, gente que só se manifesta quando acontece algum ‘ruim’? Pois é. Elas dominam as redes sociais. Sabem o nome delas? Haters!
Morro ainda mais de preguiça quando percebo que elas não assistem à novela. Não entendem o motivo que levou aquelas personagens a agirem daquela forma. Porém, munidas com toda a autoridade possível dos chatos, escrevem, gritam, levantam bandeiras feministas, unicamente para desqualificar aquilo que a incomodaram – tendo ou não fundamento.
Na série Game of Thrones, uma rainha, Cersei Lannister, orquestrou a explosão de uma igreja lotada de homens e mulheres, enquanto saboreava um vinho. A cena foi exibida em horário nobre pelo canal HBO, em junho de 2016. Não me lembro de qualquer discussão feminista ou antifeminista sobre o assunto. Afinal de contas, ela foi a responsável pela morte de homens e mulheres. Naquele momento, pouco importava a Sororidade. Homens e mulheres morreram sem distinção de sexo.

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