‘Maid’ da Netflix mostra os EUA sem o glamour hollywoodiano

A minissérie Maid (ou série limitada, seguindo as cartilhas atuais das premiações) da Netflix surpreende com uma emocionante estória sobre pobreza, violência doméstica e perseverança.
Numa madrugada, enquanto o namorado dorme ao seu lado, silenciosamente Alex (a ótima Margareth Qualley, filha de Andie MacDowell) levanta, carrega mochila e a filha de dois anos, Maddie, entra no carro e sai. Perplexo, o namorado aparece e questiona: ‘O que está fazendo?’.
No carro, ele envia mensagens dizendo que ela está ‘exagerando’. Com apenas U$ 18, gasta seis para colocar combustível. Tenta ligar para uma amiga, mas as ligações caem na caixa postal. Quando chega à casa da mesma, pede abrigo, porém, está rolando uma festinha com bebidas e drogas. Ela muda de ideia e sai. Sem outra opção, estaciono no estacionamento de um parque e adormece com a filha no colo.

Margaret Qualley em Maid (Netflix, 2021)

Na manhã seguinte, um policial a aborda avisando que não pode ficar no local. Sugere que vá ao estacionamento do Wal-Mart ou à assistência social. Ela vai ao segundo.
No lotado local, encontra uma assistente social que faz diversas perguntas sobre sua vida, incluindo se foi ela agredida, Alex responde que não. Apesar de violento e alcoólatra, ele nunca a agrediu fisicamente. Recebe indicação de emprego de faxina.
Leva a filha aos cuidados da mãe, Paula (Andie MacDowell – que assumiu os cabelos grisalhos, libertou uma grande atriz que até então ninguém conhecia e apresenta um trabalho excepcional).
É uma exultante pintora hippie que mora com o namorado jovem (com estranho sotaque que diz ser ‘australiano’) num trailer próximo a uma comunidade de artistas e… Bipolar!
Em seguida, Alex vai a uma lavanderia – que funciona como um serviço de fachada para uma empresa de faxineiras, administrada por uma mulher grosseira chamada Yolanda.

Margaret Qualley em Maid (Netflix, 2021)

O serviço de faxina custa U$ 12 à hora, sendo permitido trabalhar apenas seis horas por turno. Para isso, ela tem que comprar o uniforme, que custa U$ 25 – que será descontado do primeiro pagamento, o material de limpeza e o combustível. A ‘empresa’ fornece um aspirador de pó e um passe de ida/volta para a balsa.
No caminho, o sinal do celular some, fazendo-a atrasar 30 minutos.
Sua primeira cliente é uma rica, arrogante e rígida advogada que mora com o marido e o cachorro numa enorme casa na chiquérrima Fisher Island, ao lado da praia.
Próximo ao final da faxina, Alex desmaia num quarto infantil. Quando desperta, é questionada pela cliente ‘se é viciada em drogas’. Alex explica que não comeu nada o dia todo. A cliente busca um copo de água e uma barrinha de cereais.
Assim que volta à balsa, o celular volta a funcionar. Sua ligou 13 vezes. Ela corre o trailer. A filha não está.
Surtada, a mãe ligou para o namorado de Alex para buscar a criança.
Ela vai a antiga casa busca-la. O namorado age como se nada tivesse acontecido. Oferece até o jantar. Logo, porém, voltam às lembranças da noite anterior no qual ele ficou violento, quebrou louças e ainda esmurrou a parede. Ela volta a sair com a criança no colo.
No caminho recebe ligação de Yolanda avisando que a Regina, a cliente, não gostou da faxina. Segundo a mesma, Alex não limpou direito a área externa da casa. Se quiser receber pela faxina terá que voltar para terminar o serviço.
No meio da conserva, ela abre a janela traseira, a criança derruba a boneca e começa a gritar. Ela é obrigada a estacionar o carro no acostamento. Quando desce para procurar o brinquedo, o carro é atingido por outro dirigido por um adolescente. Apesar disto, a filha não sofre qualquer ferimento.
Assim que chega o carro do socorro e da polícia, ela é notificada de uma multa de U$ 239,90 por estacionar em lugar proibido. Se não bastasse, é avisada que o carro será guinchado (no valor de U$ 739,90). Ela telefona para o pai. Pede para ser deixada na estação da balsa. Ele não questiona.
No meio do caminho, eles param numa loja de um dólar. Ela compra outra boneca para a filha. É uma imitação da Ariel, a Pequena Sereia.
Na estação da balsa, ela e a filha adormecem no chão, ao lado da mochila, produtos de limpeza e aspirador de pó.

Descrição (quase literal) do primeiro episódio da minissérie criada e roteirizada por Molly Smith Metzler, produção executiva da atriz Margot Robbie e de Stephanie Land, autora do livro ‘Superação – Trabalho Duro, Salário Baixo E O Dever De Uma Mãe Solo’, que serviu de ponto de partida para ‘Maid’.
Existem semelhanças entre a série e o livro, principalmente nas questões da vida pessoal da personagem, porém, os roteiristas tiveram liberdade de criar outras situações e modificar características dos personagens.
Vários pontos de destacam em ‘Maid’, mas talvez a primeira seja mostrar a vida de uma mulher branca vivendo numa pobreza que não estamos acostumados a assistir em obras de ficção americanas – seja no cinema ou na televisão. Nos próximos episódios (são oito), a série mostrará a realidade dos abrigos de mulheres que sofreram violência doméstica (e que bom que eles existem), as dificuldades de acesso à outros serviços público e o preconceito americano com pessoas que eles consideram ‘derrotados’ e ‘fracos’.
São programas que desmontam os conceitos do ‘sonho americano da terra dos sonhos, da liberdade, da prosperidade, da riqueza e do respeito com os valores e tradicionais, bla-bla-bla. Ainda que os EUA sejam o país com a maior quantidade de multimilionários do mundo, tem um patamar de pobreza que afeta 10,5% de sua população, segundo dados do órgão censitário americano.
‘Nomadland’ foi a primeira obra premiada com o Oscar que mostrou uma ‘América’ diferente do imaginário popular. Foi muito elogiada pela crítica, mas praticamente ignorada pelo público que não está acostumado com este tipo de filme. Povo gosta de sonho, fantasia e escapismo. A classe média brasileira, então, vive num mundo à parte. Sabemos disso.
‘Maid’ segue o mesmo caminho. Dificilmente entrará na lista dos 10 programas mais assistidos da Netflix. Não é programa para o público de classe média que paga R$ 25 mensais num serviço de streaming.
Sabe o mesmo que ama ‘Bridgerton’, ‘Emily em Paris’ ou as séries de investigação policial, bombeiros que salvam criancinhas em prédios em chamas ou fortões que derrotam terroristas?
Então… Caso consiga ‘romper a bolha’, ele encontrará uma obra sincera, emocionante e atual.
Até o momento, ‘Maid’ disputa espaço com ‘Them (Amazon Prime)’ como a melhor minissérie ou série limitada de 2021.

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