Assim como um pacote de bala de coco… ‘And Just Like That’ é saborosa, mas enjoativa!

A minissérie And Just Like That chegou ao final da temporada. E surge a inevitável pergunta: ‘E aí, gostou?’
A primeira sensação que tive no primeiro episódio foi: ‘sabe o reencontro com um amigo que você não tinha contato há 20 anos’. Em princípio, surge a alegria e a empolgação. Você pensa: ‘parece que a amizade continua a mesma’.
Passada a primeira impressão, você começa a se lembrar dos motivos que te levaram a se afastar 20 anos da pessoa. Sabe como?
Foi uma delícia reencontrar Carrie, Miranda e Charlotte, porém, a falta de Samantha foi gritante. Com um quarteto se torna um trio 17 anos depois do término de uma série que girava em torno da vida de cada uma delas?
E exatamente Samantha? Era a representante da palavra ‘Sex’ do original ‘Sex And The City’.
Sexo sempre foi energia vital. E Samantha tinha plena consciência disso. Entendia seus desejos sem se sentir presa a qualquer convenção social. Experimentava tudo o que tinha vontade. Assim, ela se tornou mulher mais invejada da história das séries de TV americanas ao ultrapassar as fronteiras do gosto médio.

Quanto às outras…

And Just Like That @ Reprodução

Carrie era o símbolo da frivolidade. Era obcecada por roupas e sapatos. Ela representava um enorme número de pessoas que valorizam e comprar mais coisas do que realmente precisam.
Inesquecível o episódio que ‘acorda’ e descobre que é a única entre as quatro amigas que não tem um apartamento próprio. Até faz piada que poderia morar num de seus sapatos. Como um conto de fadas, uma das amigas a ajuda a resolver o problema.
Carrie era como uma observadora social. Ela prestava atenção no que acontecia no seu mundinho de uma Nova York bem específica. Seu foco era vida das amigas que usava como material para suas colunas sobre amor e sexo. Sua musa inspiradora era a escritora Dorothy Parker.
Apesar da fachada de mulher moderna e antenada com seu tempo, no fundo, Carrie era conservadora e antiquada. Seu maior desejo era arrumar um Príncipe Encantado que bancasse seus sonhos materiais. E ele chegou no corpo do charmoso Mr. Big – o símbolo do príncipe encantado das mulheres do início do novo milênio.
Miranda era a imagem da mulher que ambicionava um espaço de igualdade no mundo corporativo dominado por homens. Em sua jornada, namorados iam e vinham, sem ocuparem muito tempo. Aos 30 anos, seu foco era ser uma advogada bem-sucedida. Muda de ideia quando conhece o apaixonado e tranquilo Stevie. Ele não representava qualquer obstáculo no seu desejo profissional.
Charlotte era a perfeita representante do “WASP” – anacrônico das palavras Branco, Anglo-Saxão e Protestante em português. Ou seja, a norte-americana típica que focou sua vida em encontrar com um homem da mesma classe social, que possibilitasse manter seu Status Quo de mulher rica. Focada no seu projeto de vida, errou no primeiro casamento (com Trey MacDougal), mas acertou no segundo (Harry Goldenblatt). Mesmo não sendo um exemplo de perfeição, se apaixonou. Para celebrar, se converteu ao judaísmo para se adequar a religião do marido.

17 anos depois…

Sarah Ramirez (Che) e Cynthia Nixon (Miranda) em And Just Like That @ Reprodução

Carrie vive seu casamento de contos de fadas num belíssimo apartamento em Manhattan, onde pode aumentar suas futilidades tanto amadas. Porém, a vida prega uma peça quando Mr. Bigo tem um infarto fulminante.
Para vivenciar seu luto, ela volta ao antigo apartamento com seu mega closet de sapatos e outros acessórios. Informalmente, trabalha para um podcast liderado por Che (Sarah Ramirez) – uma comediante não binária, que também leva aos palcos suas apresentações. Engata algumas saídas com outro viúvo, também em luto. Ou seja, duas pessoas que tentar superar seu luto, mas sem grandes chances de sucesso.
Encontramos Miranda num casamento tedioso com Steve. Também está estranhando a livre vida sexual do filho. Tentando mudar fazer sumir o tédio, volta à vida acadêmica. Porém, se depara com bruscas mudanças sociais que avançaram muito rápido enquanto experimentava sua vidinha de mulher de classe média e suburbana. Causou muito estranhamento encontrar uma mulher, que era tão prática aos 30 anos, vivendo em total apatia e encontrando única alegria em altas doses de bebidas escondidas na bolsa. Porém, uma nova– e inesperada – paixão a salvará de uma vidinha ordinária.
Charlote continua casada e feliz com Harry e enfrenta novos dilemas com duas filhas adolescentes. O maior desafio é descobrir que uma delas não se identifica com qualquer gênero. Para uma WASP fiel aos princípios de ‘Família, Honra e Tradição’, ela é obrigada a despertar da inércia de sua bolha de perfeição.

Sarah Jessica Parker no último episódio de And Just Like That @ Reprodução3

Bom… A química entre as três continua, mas é inegável a falta que Samantha faz. Não tem solução.
Para tentar atenuar, os roteiristas criaram outras personagens. Além da citada Che, Carrie ganha outra amiga, a bem sucedida corretora de imóveis Seema. Miranda conhece a Dra. Nya Wallace no curso e Charlotte a outra rica Lisa Todd Wexley.
Inicialmente, o amigo de Carrie Stanford tenta se juntar ao trio, porém, com a morte do ator Willie Garson entra o segundo e terceiro episódio, quem tenta a vaga – sem sorte – é Anthony Marantoni. Que já era chatíssimo no passado… E só piorou!
Das novas personagens, o único acerto é Che, interpretado com muita verdade pela atriz Sarah Ramirez, que anteriormente ficou conhecida como a Dra. Callie Torrez de ‘Grey’s Anathony’. Os demais são completamente dispensáveis.

Sarah Jessica Parker em And Just Like That @ Reprodução

Os dez episódios são irregulares. Alguns acertam, pois os roteiristas acertaram ao modernizar algumas situações – principalmente no romance entre Miranda e Che e a questão da filha agênero de Charlotte). Mas outros, como as questões das novas amigas do trio, são dispensáveis.

O último episódio sofre por tentar resolver a questão do luto de Carrie de uma forma atropelada e vaga. Piora com a troca de mensagens pelo celular ela e Samantha, ficando claro que houve um encontro. Porém, meus caros, não foi mostrado. Os roteiristas devem achar que somos um bando de trouxas. Pelo amor…

Ah! E quanto às roupas de Carrie… Achei alguns tão cafonas e datados! Parecem sobras dos figurinos da série de 17 anos atrás!

No balanço final, ‘And Just Like That’ parece um pacote de bala de coco gelada. Você come uma… Duas… Três… Da quarta em diante, mesmo sabendo que é saborosa, é muito enjoativa.