O Vôo da Rainha – A soberba levada às últimas consequências

Micaela e o livro O Voo da Rainha @ Acervo pessoal

Artigo assinado pela livreira Micaela Huertas

Este romance do argentino Tomás Eloy Martínez faz parte da coleção Plenos Pecados da Editora Objetiva em que cada autor foi convidado a escrever sobre um dos pecados capitais. A coleção foi um sucesso e no Brasil estourou em vendas com o lançamento de “A Casa dos Budas Ditosos” – a luxúria por João Ubaldo Ribeiro.
Antes de falar da Soberba de Tomás Eloy já digo que, dos sete li cinco dos pecados nas letras de grandes escritores e, recomendo todos. A ideia da coleção foi perfeita, a escolha dos autores também e a forma como foram capazes de colocar os pecados em suas narrações nos leva a refletir sobre a vida, assim como nossas escolhas e quem nos rodeia.
Voo da Rainha não é diferente. O autor se valeu do poder de um diretor do maior jornal da Argentina para nos mostrar o quanto a soberba pode nos tornar indiferente aos outros e às consequências dos nossos atos.
Camargo venceu depois de uma infância difícil, agravada pela figura de uma mãe ausente que acaba abandonando a família de vez. Este fantasma o perseguirá até seus últimos dias e terá grande influência na forma como vê e se relaciona com as mulheres.
Como pano de fundo de uma estória que até parece de amor, temos uma Argentina devastada pela corrupção e pela miséria crescente. É no auge desta situação que a jornalista novata Reina Remis se destaca na redação e nos desejos do grande homem da imprensa. Dando-lhe mais oportunidades e fazendo-a subir no jornal, Camargo garante a transformação da menina e novata, numa das jornalistas mais admiradas e respeitadas da redação e do país.
Mas não o faz por bondade, faz porque na ideia de Camargo, Reina lhe pertence. Assim como a casa, os carros, o jornal, o poder e a glória que alcançou. Essa ideia garante ao editor a certeza de que a Argentina e o mundo lhe devem respeito, além de que ninguém é nada se comparado a ele e a sua importância para o mundo.

Micaela e o livro O Vôo da Rainha @ Acervo pessoal

A soberba o pica como uma abelha-rainha e o leva a derrocada no momento em Reina decide abandoná-lo e voar sozinha, em outros desafios e em outros braços. É impossível para Camargo aceitar tal traição. As mulheres, como sua mãe, o abandonam porque não o respeitam e, por isso, devem ser castigadas.
A vingança de Camargo é o que assistimos no desenrolar da trama. É uma das piores vinganças que já li. É revoltante o que ele é capaz de fazer. É assustador como tudo acaba. Mas não é horrível de ler, ao contrário, o livro prende do começo ao fim. Há momentos em que é possível até ter empatia por Camargo.
O autor ainda usou duas estratégias que abrilhantaram seu trabalho: não há sequência cronológica, partes da história vão e voltam conforme o momento narrado e quem o narra, pois ele também muda os narradores, não ouvimos apenas a voz de Camargo o tempo todo.
Além disso, Tomás traça um paralelo com o famoso crime de Pimenta Neves, o célebre jornalista brasileiro que assassinou sua namorada Sandra Gomide quando esta terminou o relacionamento.
No entanto, há uma nota final no livro deixando claro que suas personagens, histórias e acontecimentos políticos são mera ficção, mesmo que pareçam calcados na realidade.
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